A intervenção militar no Rio como possibilidade de ampliação do golpe em curso

A crise na segurança pública vivenciada hoje no Brasil que teve como desfecho a intervenção no Rio de Janeiro, não é localizada nesse estado, mas uma escalada de violência que se alastra por todo o país. Aliás, vendo as estatísticas, o Estado do Rio tem um número elevado de crimes em número absoluto, porém quando se faz a proporcionalidade com a população, o número de assassinatos por 100 mil moradores, é bem menor que boa quantidade de estados, mais precisamente ficando o Rio na 10ª e a cidade o Rio não está nem entre as 30 mais violentas do país. O Rio vinha num processo importante de redução dos índices de violência, interrompido pela gestão desastrosa do governador hoje preso, que quebrou o estado com a corrupção generalizada.

A intervenção vem pouco depois de um pré-candidato a presidência da república declarar em uma conferência pública que, se eleito, mandaria metralhar a favela da Rocinha, e sendo aplaudido por isso. É apoiada por muitos, tendo como justificativa que no Rio, mas precisamente nas favelas do Rio, há a constante disputa pelo comando do tráfico. Mas desde quando as autoridades em nosso país se preocupam com briga entre facções rivais?

Nos últimos anos as drogas avançaram em todo o país, não somente nas capitais ou nas grandes cidades, mas em lugares mais remotos distritos com população de 1000 habitantes. Com isso veio a escalada da violência. Temos uma juventude sem perspectiva que termina se viciando, sem ter dinheiro para bancar o vício, muitos começam com pequenos delitos e terminam por entrar de vez na criminalidade. Essa juventude está se matando há muito tempo e o poder público simplesmente “tem fechado os olhos” para o problema.

É muito comum nas periferias  jovens na faixa de 15 anos, quando deveriam estar se preparando para a vida, serem mortos e uma simples justificativa do tipo: já tinha passagem na polícia; estava envolvido com drogas; foi morto por uma gangue rival ou outra justificativa qualquer o crime sequer é investigado e a justiça pelas próprias mãos prevalece entre a juventude, com o aval do estado. Essa política de “não se meter em briga de bandidos” é comum e tem levado a um verdadeiro genocídio da população jovem, negra e pobre da periferia nas grandes cidades.

Uma avaliação critica sobre isso, parece que o estado “resolve” seu problema. Vemos todos os dias especialistas em políticas sociais alertarem para a falta de políticas públicas para a juventude. Políticas simples como escola, atividade esportiva e a perspectiva de acolhimento no mercado de trabalho. Como o estado não investe é cômodo a matança: cada jovem que vai é “um problema a menos”.

O problema então não é guerra de facção, disputa pelo comando do tráfico. Quando a criminalidade atinge o outro lado, pega um membro da alta sociedade, aí sim existe investigação e punição exemplar.

A intervenção no Rio revela desde o início esse perfil discriminatório. A intenção do interventor de ter “mandados de busca coletiva” deve se restringir apenas às favelas, eles não iriam fazer a invasão em busca de drogas e armas nos condomínios da Barra ou do Leblon. Um dizer popular sempre nos alertou que aqui temos justiça para os ricos e cadeia para os pobres. Ultimamente tivemos um agravamento e a população pobre tem sido tratada com um desprezo bem maior o desprezo à dignidade e a própria vida.

A intervenção mais parece um teste para a possibilidade da continuidade e ampliação do golpe em curso, agora apoiado ou transformado em golpe militar, ou golpe civil militar. A escolha do estado do Rio ou, mais especificamente, da cidade do Rio de Janeiro para um teste desse tipo, porque a geografia divide o povo. Os ricos moram na praia e os pobres se aglomeram em favelas no morro. O ataque aos morros dá a impressão que combate a criminalidade mas, principalmente, pode servir para ver como o povo reage diante da mortalidade da população inocente ou da violação de direitos que uma ação dessas pode causar.